A ressurreição da carne

Geral

Written by:

O ataque não foi terminado. Após a condenação da OMS, o manjar carnívoro está mais questionado do que nunca. É ainda possível e saudável salvar a carne?

O ataque não foi terminado. Após a condenação da OMS, o manjar carnívoro está mais questionado do que nunca. É ainda possível e saudável salvar a carne?

Pela boca entra a carne vermelha e processada, mas a boca também saíram todos os tipos de críticas a esse tipo de alimento transformado em necessidade e prazer para milhões de pessoas em todo o mundo. A própria Organização Mundial de Saúde (OMS), que alertou sobre o consumo, garantindo que provoca câncer e teve que sair para o passo do terremoto que havia provocado, quatro dias depois, pedindo calma. Ele só quer que as pessoas a parar de consumir tanta carne. Não sabemos se nesse período de quatro dias, Joey Chestnut, americano de 29 anos de idade e 95 quilos de peso, ele sufocou seu recorde como sala de jantar de 69 cachorros-quentes em 10 minutos. Mas o que ele passou para a opinião pública é o novo comunicado da autoridade da OMS formada por 22 cientistas. Dizem que devemos comer carne moderando a quantidade durante a semana.
Os especialistas realizarão uma próxima reunião, no início do próximo ano, para definir as reais consequências que implica o consumo de carne vermelha e processada na nossa saúde. Perante o anúncio, o mundo inteiro relaxou tanto que até o Governo chinês decidiu um tempo depois, e depois de 35 anos, que seus cidadãos possam ter mais de um filho. “Quantas pessoas morrem por ano por ingerir grandes quantidades de carne vermelha e processada? Pois estima-se que entre 30.000 e 35.000 em todo o mundo. Eu acho que é um valor ridiculo. Se eu como carne vermelha eu vou morrer? Mentira. Se eu como carne vermelha processada vou desenvolver um câncer? Mentira”, aponta Afonso Carrascosa, pesquisador científico do CSIC (Conselho Superior de Investigações Científicas).
A indústria da carne, em nosso país, representa um volume de negócios que ronda os 22.168 milhões de euros
Desde a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) assegura que o dano para a carne já está feito. “Falou-Se durante dias e terá um impacto lógico no consumidor. Devemos analisar em profundidade o desenvolvimento dos estudos mundiais sobre a alimentação”, disse Pedro Marcelo Arias, diretor da Divisão Técnica de Comércio e Mercados da FAO, durante a apresentação no México do relatório Perspectivas Agrícolas 2015-2024.
“A declaração da OMS nos afeta muito, porque vai dirigida contra nossos produtos-estrela. O tabaco mata mil vezes mais do que a carne vermelha. Nós não acreditamos que a situação gerada tenha uma repercussão direta sobre as vendas. Não sei se alguém tem interesse empresarial em que deixemos de comer carne. Mas ninguém escapa que a UE elabora relatório no qual se especifica a redução do consumo de carne de cara 2025”, afirma Ricard Julià, porta-voz da Federação Catalã de Açougueiros e Charcuteros. De fato, o pleno do Parlamento Europeu (PE) aprovou, por maioria, em finais de outubro, uma legislação que autoriza o consumo de novos alimentos, entre os quais se incluem insetos, fungos, algas e novos corantes.
Atenção aos aditivos
Desde o passado dia 26 de outubro, a OMS afirmou que se forem consumidas 50 gramas de carne processada a cada dia, aumenta em 18% o risco de cancro colo-rectal, as reações não têm parado de existir. “A OMS faz referência a carne processada de forma geral, seja salgadas, fumadas ou cozida. Não especifica que o método de cura ou preparação é mais prejudicial para a saúde, porque não é esse o seu objeto de estudo. E não diz se o nocivo reside na carne ou talvez os aditivos que leva”, aponta Antoni Castells, diretor do Instituto de Doenças digestivas do Hospital Clínic de Barcelona. Por seu lado, a Federação Europeia de Associações Cárnicas (CLITRAVI) respondeu ao momento com um comunicado onde expressou seu mal-estar com a OMS. Segundo a organização, “existe ampla evidência científica que demonstra os benefícios do consumo de carne dentro de uma dieta saudável. São uma excelente fonte de proteínas de alto valor biológico, assim como uma grande fonte de aminoácidos essenciais, vitaminas do grupo B, como a vitamina B12, que contribui para o funcionamento normal do sistema imunitário– e de minerais como o ferro, que ajuda a reduzir o cansaço”.
Mas nem todos estão de acordo com esta abordagem. Para o diretor internacional da Igualdade Animal, Javier Moreno: “A informação tornada pública pela OMS, tem uma especial relevância. Tendo em conta que a carne fica incluída no grupo 1, onde já encontramos produtos nocivos como o álcool e o tabaco, não sei como, mas esse número deve aparecer nos rótulos dos produtos. E eu não tenho dúvida de que a indústria da carne usará todo o seu poder para impedi-lo”. David Gasol, nutricionista especializado em vegetarianismo e viver com saúde, também participa do critério da OMS. “O consumo excessivo de carne só favorece o aparecimento da obesidade, além de acidificação de todo o organismo. O corpo humano necessita apenas de 15% de proteína animal, por isso não entendo que tanto nos menus escolares como nos bares e nas residências de idosos consomem elevadas quantidades de carne”, observa.
“O ser humano só precisa de um 15% de proteína animal para estar saudável”
O mal de proibir os sais
No relatório da OMS também menciona que a carne pode conter substâncias químicas que se formam durante o seu processamento ou cozimento. Por exemplo, entre estes componentes que aparecem incluem-se os sais nitrificantes –os nitratos e nitritos–, conservantes inorgânicos potencialmente cancerígenos. Para evitar esses efeitos, desde há anos, a investigação sobre o desenvolvimento de outros produtos mais naturais, como os extratos de alecrim e alfafa, mas os sais nitrificantes continuam a utilizar de forma generalizada. Se não usamos estes sais, tal como demonstraram os pesquisadores do Grupo de Tecnologia de Alimentos de Origem Animal da Universidade Complutense de Madrid no verão de 2012, representa um enorme risco para a segurança microbiológica do alimento.
Se um salpicão contaminado pela bactéria Listeria monocytogenes –listeria– lhe reduz a uma quarta parte da quantidade de nitritos e nitratos, o patógeno aumenta o perigo de 30 vezes. “Possivelmente, agora estamos comendo menos de sais do que nunca. Há décadas, em Portugal, foram elaborados enchidos usando sais especiais que agora sabemos através de testes de laboratório, que são ricas em nitratos e nitritos. Convém não esquecer que, graças a estes sais evitamos o aparecimento de uma doença tão grave como o botulismo”, adverte Carme Vidal, professora de Nutrição e Bromatologia da Universidade de Barcelona (UB). Colocar as carnes salgadas é algo que se fazia no Antigo Egito. Desse modo, podiam guardá-las e mantê-las comestíveis durante muito tempo. Há mesmo evidências materiais de uso semelhante na China do terceiro milênio antes de Cristo. “O estudo da OMS não demonstra que os aditivos que leva o pepperoni, por exemplo, são cancerígenos. O que detectamos é que a carne assada sim é prejudicial consumida com muita frequência. Provavelmente, a origem do mal venha dado diretamente da gordura animal, quando entra em contato com o fogo. É aí que se geram substâncias cancerígenas. Mas isso também se sabia já, não traz nada de novo”, afirma Antoni Castells, diretor do Instituto de Doenças Digestivas do Hospital Clínic de Barcelona.
O Comer carne é bom para a saúde? Sem dúvida. Nos fornece os aminoácidos que, em seguida, ajudá-lo a construir o nosso estado físico. “Com os estudos de que dispomos não está detalhado o número exato de vezes que devemos consumir carne. O senso comum diz que, dentro de uma dieta variada podemos comer carne vermelha, um par de vezes ou três por semana”, continua apontando Antoni Castells. A indústria
alimentar nos permitiu passar da escassez à abundância de produtos à base de carne, mas a ausência de informação sobre as tecnologias que são utilizadas nos processos de elaboração provoca desconfiança no consumidor.
A má fama
E o último relatório da OMS pode contribuir para que o consumo de carne se mantenha baixa. Tal como assinala Jesus Contreras, professor de Antropologia Social da Universidade de Barcelona e diretor do Observatório da Alimentação (ODELA) do Parque Científico de Barcelona: “Existem inúmeros fatores culturais que desempenham um papel importante na diminuição progressiva do apetite por carne. Pode-se destacar o papel do discurso médico, em sua dupla vertente de saúde e moral, ao salientar que os produtos à base de carne são ricos em ácidos gordos saturados e colesterol… Também intervém uma nova concepção estética do corpo humano, não só da mulher, que idealiza a linha fina e a manutenção constante da forma física”.
O consumo doméstico de carne diminuiu 4,3% em Espanha em 2014, segundo dados do Ministério da Agricultura
Os últimos dados do Ministério de Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente confirmam tudo isso. Segundo observa, o consumo doméstico de carne recuou 4,3% em Portugal durante 2014.
O câncer aumenta
E aqui nos deparamos com uma contradição em relação ao câncer. A Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer é clara: a mortalidade do câncer colorretal está a aumentar em Portugal. Só no período que vai de 2012 a 2014 foram mortas e cerca de 34.000 pessoas por causa dessa doença. “Vemos que influencia mais o código postal que o genético na hora de desenvolver um câncer. Se você vive em um país rico, com um alto grau de contaminação ambiental, come muita comida processada, fuma e bebe, o seu código genético terá uma alta probabilidade de sofrer uma mutação que desenvolver um câncer”, explica José Martí Valls.
Pela frente é saber a estimativa de risco real de comer carne vermelha e processada, que deve fazer a autoridade sanitária da União Europeia, de passagem, vamos ver se há alguma indústria alimentar, que se beneficia do possível declínio do consumo de carne. E sempre ficará Ferran Adrià, o que agora lhe aconteceu unir um cozido de carne com folhas de mate, em vez de tomilho.
Tags: carne vermelha.

Comments are closed.